Projeto com IA revoluciona educação pública em Alagoas

Iniciativa desenvolvida em Belo Monte conquista prêmio nacional ao unir tecnologia, inclusão digital e ensino personalizado para estudantes da rede pública

Por Lucas França e Valdete Calheiros - Repórteres / Bruno Martins: Revisão | Redação Tribuna Hoje

Transformar vidas através da educação. Este foi o objetivo proposto – e alcançado – pelo professor Maxwell Melo da Silva, de 27 anos, do município de Belo Monte, no Sertão de Alagoas, com o projeto “Laboratório de IA Pedagógica + Programa Conecta Belo Monte”.

O projeto ganhou o primeiro lugar nacional da 3ª edição do Prêmio Educador Transformador, na categoria Jornada de Inovação Pedagógica e Metodologias Ativas.

Durante o processo de seleção, os projetos que conquistaram o primeiro lugar nas Jornadas Estaduais seguiram para a etapa nacional. Ao todo, foram 5.560 inscrições, de participantes dos 26 estados e do Distrito Federal, que concorreram em três categorias: Inovação Pedagógica e Metodologias Ativas, Inclusão e Sustentabilidade na Educação e Gestão Educacional Transformadora.

Em Alagoas, a vida do estudante Isaías Soares Neto, de 11 anos, foi diretamente impactada pelo projeto. O jovem aluno contou que achou o projeto muito bom, porque tanto ele quanto os colegas estão aprendendo muito mais. “O projeto está nos ajudando muito, pois as aulas são feitas de acordo com a dificuldade da gente, além disso, estamos tendo experiências com outras coisas que vão servir de aprendizado para o nosso futuro”, resumiu, mostrando os efeitos do projeto na vida estudantil.

Estudante Isaías Soares Neto ressalta impacto do projeto (Foto: Divulgação)

Sua mãe, a auxiliar de serviços gerais Fabiana dos Santos, de 31 anos, contou que o projeto é importante porque vai ajudar ainda mais na aprendizagem e desenvoltura do filho. “Fiquei muito satisfeita. Foi uma personalização do ensino. As aulas são adaptadas ao ritmo e à dificuldade de cada aluno. O aluno vira protagonista. O engajamento acontece com o uso de atividades lúdicas e da gamificação que transformam o processo de aprendizagem em algo mais dinâmico e interativo, com acompanhamento em tempo real. Mesmo com o professor fora da sala de aula, ele consegue monitorar o desempenho dos alunos”, detalhou.

Quem também teve a vida transformada pela educação foi a estudante Alícia Emanuelly Gonçalves Fontes, de 10 anos, filha da auxiliar de serviços gerais Karolayne Gonçalves Silva, de 29.

A aluna contou que o projeto foi muito importante porque a fez aprender mais usando o computador e as atividades ficaram mais divertidas. “Eu também melhorei minha leitura e comecei a participar mais das aulas. Antes eu tinha vergonha de errar, mas agora eu me sinto mais confiante para aprender”.

A menina disse que ficou muito satisfeita e que gostou bastante das atividades, dos jogos e das aulas com tecnologia. “Foi uma experiência diferente e muito legal. Eu queria que o projeto continuasse por muito tempo na escola. Aprendemos de um jeito mais divertido, usamos os computadores nas atividades, tivemos ajuda dos professores e consegui aprender no meu ritmo. Eu também gostei porque os alunos participaram mais das aulas e ficaram mais animados para estudar”, detalhou, ao contar sua rotina com o projeto.

'Durante o trabalho em sala de aula, percebi que muitos alunos apresentavam dificuldades de aprendizagem, mas ao mesmo tempo demonstravam grande interesse pelas ferramentas digitais' - professor Maxwell Melo.

Professor Maxwell Melo e seus alunos, na Escola Municipal Santo Antônio, em Belo Monte (Foto: Divulgação)

Laboratório de IA pedagógica + Programa Conecta Belo Monte

O professor Maxwell Melo da Silva explicou que o projeto “Laboratório de IA pedagógica + Programa Conecta Belo Monte” visa usar a tecnologia e inteligência artificial na educação, no uso consciente na melhoria e prática do ensino.

Ele contou que o projeto foi aplicado em uma turma de 5° ano, Fundamental I, da Escola Municipal Santo Antônio, no povoado Restinga, no município de Belo Monte. “O projeto é adaptável e pode ser usado em qualquer série ou modalidade de ensino. O projeto impactou diretamente 18 alunos, 17 famílias e oito professores”, esmiuçou o responsável, que contou ainda com a diretora escolar Kenya Tuane e a coordenadora e técnica de educação, Doriedna Gomes.

Ainda segundo o professor, o alcance é bem maior ao levar em conta o impacto indireto na educação do município e do estado. E após o reconhecimento nacional, serve de inspiração para todo Brasil. “O Prêmio Educador Transformador é direcionado a professores e gestores de instituições de ensino públicas e privadas que buscam inovar na educação”, detalhou Maxwell.

Segundo o professor, a iniciativa surgiu a partir da necessidade de enfrentar dificuldades de aprendizagem, especialmente relacionadas à leitura, além de ampliar o uso pedagógico das tecnologias digitais na escola pública. “Inicialmente, o projeto foi desenvolvido com alunos do 5º ano e professores da unidade escolar, utilizando um Laboratório de IA Pedagógica com notebooks recondicionados, trilhas adaptativas de aprendizagem e formação docente voltada ao uso consciente da tecnologia na educação”, considerou.

Para Maxwell, receber o primeiro lugar nacional no Prêmio Educador Transformador representa o reconhecimento de que é possível desenvolver inovação educacional de qualidade dentro da escola pública, mesmo em contextos com recursos limitados. “Essa premiação valoriza não apenas o projeto, mas também toda a comunidade escolar envolvida: professores, estudantes, gestão e famílias que acreditaram na proposta desde o início. Além disso, ela mostra que iniciativas criadas em municípios do interior também podem gerar impacto nacional e inspirar outras escolas brasileiras”.

O projeto visa também ampliar o uso pedagógico das tecnologias digitais na escola pública (Foto: Divulgação)

Ele acrescentou também que o reconhecimento fortalece ainda mais a missão de transformar a educação por meio da tecnologia, da inteligência artificial e de metodologias mais humanas, participativas e inclusivas.

O professor diz se orgulhar ao descrever que o projeto continua impactando as pessoas, principalmente, ao fortalecer o protagonismo dos estudantes e a autonomia dos professores no processo de aprendizagem. “Os alunos passaram a participar de forma mais ativa das atividades, demonstrando maior engajamento, interesse pela leitura e mais confiança para aprender utilizando recursos tecnológicos. Já os professores passaram a experimentar novas metodologias e perceber a tecnologia como uma aliada pedagógica acessível e possível dentro da realidade da escola pública”, destacou.

Além do impacto dentro da escola, o projeto também inspira outros educadores ao mostrar que inovação não depende apenas de grandes investimentos, mas de criatividade, colaboração e compromisso com a transformação social. Atualmente, a proposta já é vista como um modelo que pode ser adaptado e replicado em outras escolas e redes públicas de ensino.

O professor Maxwell explicou ainda que a ideia do projeto nasceu da observação das dificuldades de leitura enfrentadas pelos estudantes e da necessidade de aproximar a escola das novas tecnologias de forma pedagógica e significativa.

“Durante o trabalho em sala de aula, percebi que muitos alunos apresentavam dificuldades de aprendizagem, mas ao mesmo tempo demonstravam grande interesse pelas ferramentas digitais. A partir dessa realidade, comecei a refletir sobre como a tecnologia e a inteligência artificial poderiam ser utilizadas não apenas como recursos modernos, mas como ferramentas reais de apoio à aprendizagem”, frisou.

O projeto foi sendo construído gradualmente, completou, a partir de testes, escuta dos estudantes, diálogo com professores e adaptação constante das práticas pedagógicas. “A proposta evoluiu até se transformar no ‘Programa Conecta Belo Monte + Laboratório de IA Pedagógica’, unindo inovação, formação docente, inclusão digital e protagonismo estudantil para fortalecer a educação pública”, esclareceu.

Prêmio Educador Transformador

  • O Prêmio Educador Transformador é promovido por Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Instituto Significare e Bett Brasil. A cerimônia aconteceu em São Paulo, em 6 de maio. O prêmio reconhece e impulsiona práticas educacionais inovadoras na educação e valoriza o protagonismo de professores e gestores que desenvolvem soluções criativas para os desafios reais do ensino.
  • “Transformar a educação é um esforço coletivo que começa com lideranças capazes de ouvir, planejar e mobilizar professores, estudantes e comunidades. Os gestores reconhecidos fazem da gestão uma ferramenta de transformação social, fortalecendo a educação municipal e a comunidade, contribuindo para o desenvolvimento dos territórios e do nosso país”, comemorou Rodrigo Soares, presidente do Sebrae.

Prêmio destaca projetos inovadores que podem transformar a educação no Brasil

O Prêmio Educador Transformador destacou projetos inovadores voltados à melhoria da educação pública e ao fortalecimento do ensino no Brasil. A iniciativa, realizada pelo Sebrae em parceria com a Bett Brasil, reuniu 143 professores de diferentes estados do país durante o maior evento de educação da América Latina.

Entre os destaques da premiação esteve o projeto “Laboratório de IA Pedagógica + Programa Avança Belo Monte”, desenvolvido por Maxwell Silva, no Sertão de Alagoas. A proposta utiliza inteligência artificial e computação desplugada para combater desigualdades digitais e dificuldades de aprendizagem. “Trazer esse projeto para nossa cidade é um orgulho muito grande”, afirmou o educador durante a premiação.

Maxwell Silva comemora a vitória na premiação (Túlio Vidal / Ascom Sebrae)

Segundo Ana Paula Papa, analista de Educação Empreendedora do Sebrae Nacional, o prêmio busca estimular soluções criativas capazes de gerar impacto dentro e fora das salas de aula. Já Adriana Martinelli, diretora de conteúdo da Bett Brasil, destacou que o projeto incentiva educadores a encontrarem soluções para problemas reais por meio da inovação e da criatividade.

A Bett Brasil reuniu cerca de 47 mil educadores, especialistas e representantes de 22 países para debater tendências, tecnologia e novas práticas educacionais. O evento também contou com palestras, workshops e espaços voltados à inovação, inclusão e personalização do ensino.

Projeto educacional com IA em Belo Monte pode se transformar em startup de tecnologia

O “Programa Conecta Belo Monte + Laboratório de IA Pedagógica”, voltado à inovação na educação pública, inclusão digital e protagonismo estudantil, pode ir além da sala de aula e se transformar em uma startup de educação e tecnologia. A proposta tem potencial para auxiliar escolas públicas e privadas na adoção de metodologias mais inclusivas e adaptadas às necessidades dos alunos.

Em entrevista ao portal Tribuna Hoje, o gestor de Ecossistemas de Inovação do Sebrae Alagoas, Washington Lima, explicou que transformar uma ideia inovadora em negócio exige validação de mercado, planejamento e capacidade de adaptação. Segundo ele, startups trabalham com soluções novas e ainda não testadas, o que aumenta os riscos. “O principal desafio é justamente validar se a solução realmente atende uma demanda e se existe mercado para ela”, afirmou.

gestor de Ecossistemas de Inovação do Sebrae Alagoas, Washington Lima (Foto: Ascom Sebrae)

O especialista destacou ainda que empreendedores podem buscar apoio em instituições como Sebrae, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), fundações de pesquisa, bancos e fundos de investimento voltados à inovação. De acordo com Washington Lima, as startups passam por etapas que envolvem ideia, validação, operação e crescimento, até conseguirem alcançar escala e ampliar a atuação no mercado.

Para o gestor, o diferencial de uma startup está na rapidez para testar soluções e corrigir falhas. “Ela precisa resolver problemas que possam ser replicados em diferentes lugares, com potencial de crescimento e alcance de muitos clientes”, explicou. Segundo ele, qualquer pessoa com uma ideia inovadora pode abrir uma startup, desde que o projeto tenha potencial escalável e um modelo de negócio sustentável.

Startups aceleram inovação e desenvolvimento econômico

As startups têm papel importante no desenvolvimento econômico por promoverem inovação, tecnologia e geração de mão de obra qualificada. A avaliação é do professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Chico Rosário, que defende maior integração entre empresas tradicionais e negócios tecnológicos para fortalecer o mercado local.

Segundo o economista, o principal impacto das startups vai além do faturamento e da participação no Produto Interno Bruto (PIB). “Elas favorecem o desenvolvimento econômico porque incorporam tecnologia ao território e ajudam empresas que antes não tinham acesso a soluções inovadoras”, explicou. Rosário destacou ainda que o ambiente de inovação em Alagoas já possui potencial para crescer, mas necessita de políticas públicas que estimulem conexões entre startups e empresas tradicionais.

Chico Rosário defende maior integração entre empresas tradicionais e negócios tecnológicos para fortalecer o mercado local (Foto: Divulgação)

O professor também ressaltou que as startups ajudam a movimentar a economia ao gerar empregos qualificados e criar demanda para diversos serviços, como design, tecnologia e produção especializada. Apesar de muitas empresas dependerem inicialmente de editais e financiamentos públicos, ele afirma que o setor contribui para formação profissional e desenvolvimento tecnológico. “Sem tecnologia a gente não avança. Mesmo quando uma startup não prospera, ela deixa aprendizado, qualificação e profissionais preparados para o mercado”, concluiu.

Hubine amplia apoio à inovação e ao empreendedorismo em Alagoas

O Hub de Inovação do Banco do Nordeste (Hubine) vem fortalecendo o ecossistema empreendedor em Alagoas, oferecendo mentorias, conexões estratégicas e acesso a linhas de crédito voltadas à inovação, como o FNE Startup e o FNE Inovação. Em apenas cinco meses, o banco alcançou R$ 15 milhões em financiamentos para negócios inovadores no estado, consolidando seu papel no fomento à criação e crescimento de startups e empresas em diferentes estágios de desenvolvimento.

Além do apoio financeiro, o Hubine promove cultura de inovação por meio de eventos, capacitações e parcerias estratégicas. Exemplos incluem a participação no Roga DX 2025, em Maceió, com experiências imersivas como o tour virtual da exposição “Nordeste Expandido”, e ações como programas de aceleração, desafios de negócios e eventos de design thinking. Essas iniciativas buscam conectar startups a investidores e apoiar empresas na obtenção de incentivos fiscais e editais de pesquisa e desenvolvimento.

Para Evandro Cássio, analista bancário e integrante do Hubine, o objetivo é transformar ideias em negócios sustentáveis e gerar impacto positivo na economia regional. “Nosso papel como banco de desenvolvimento vai além do crédito. Apoiar o ecossistema inovador e valorizar a cultura regional são formas de transformar realidades”, afirma, destacando ainda a importância do setor público como articulador de soluções que nascem dentro da própria região.